O Vestido

Um sapatinho vermelho de cada vez, depois as meias compridas, os joelhos gêmeos em delicadeza, e a barra rendada do vestido cor de pele amarelada. Quem via até pensava que o vestido era uma decepção na paisagem, destoando dos sapatos escarlates vibrantes, das meia tão brancas e novas... o que não se via, era que o vestido era mais que um vestido encardido, era um companheiro solitário. Todos os dias seu tecido puído corria segurando o vento pra que não batesse com força na barriga da menina; segurava na barra enrolada mais de cinco carambolas que a menina devorava devagar na sombra do cajueiro, era um caju, uma carambola... o caju não ia na barra, pra não dar noda; No traseiro uns seis ou sete fios puxados denunciavam as tardes afofando o chão de terra empedrada pra menina poder descansar; e no final de toda tarde as mangas, uma das poucas partes que ainda conservava maciez, serviam de mãe e dava colo pra cabeça pesada da menina, acariciando as bochechas molhadas, acolhendo suas lágrimas mesmo sem entender o porquê. Era um companheiro solidário, aquele vestido... destoava mesmo do resto do mundo.

Sobre o que dizer

Não é fácil não saber o que dizer. Mas no fundo a gente nunca sabe mesmo. Ninguém tem certeza absoluta de que a palavra que vai sair da sua boca vai entrar certinha como queria no ouvido da outra pessoa. Tem gente por aí que pensa que sabe bem o que diz, mas não sabe mesmo é de nada, nem da importância do bom dia que fala tão distraidamente. Eu mesma nunca soube direito a hora certa de dizer alguma coisa. Quando eu era pequena, na dúvida, falava o tempo todo. Hoje, não falo quase nada, espero muito, penso muito antes de falar qualquer coisa. Tenho mesmo é que encontrar um meio termo, uma maneira de falar o que quero sem ferir quem não quer me ouvir... não é nada fácil isso! Mas o que é fácil nessa vida?

Primeira Observação

Um dia como o de hoje, muita chuva e pouco sono, não deve ser o mais recomendado pra começar seja o que for, mas seguir recomendações e direcionamentos nunca foram meu forte. Inaugura-se aqui um observatório do mundo! Um mundo sem juízo. Sem juízo de valor, em que olha... sem juízo pela loucura, em quem participa. Seja como for, sejamos bem-vindos ao Mundo Sem Juízo de Mariana Cella.